A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tenta combater os golpes e as fraudes com educação e alertas ao mercado, explica Roberto Mendonça, gerente de Apuração de Irregularidades da Superintendência de Relações com Investidores Institucionais. No site da autarquia (www.cvm.gov.br) há o Portal do Investidor, onde é possível simular os golpes e entender como eles funcionam.
Há também uma área onde a CVM recebe consultas de investidores sobre a regularidade de ofertas de investimento. "Nem sempre são denúncias, às vezes são consultas apenas, mas por meio delas acabamos descobrindo irregularidades", diz. "Isso é fundamental porque não dá para a CVM estar presente em todos os lugares." A BM&FBovespa também tem um serviço de consultas para investidores em seu site (www.bovespa.com.br), onde é possível ter informações sobre corretoras e tirar dúvidas sobre agentes autônomos ou clubes de investimento, explica Luiz Felipe Paiva, diretor da Central Depositária da BM&FBovespa. Paiva cuida do registro dos clubes. Caso seja detectada alguma irregularidade, o caso é repassado para a CVM.
É o caso de pessoas que circulam no interior do país se passando por agentes autônomos ou consultores oferecendo palestras gratuitas sobre investimentos para se aproximar das pessoas e recolher aplicações, diz José Alexandre Cavalcante Vasco, superintendente de Orientação e Proteção aos Investidores da CVM . Alguns chegam a usar fichas cadastrais falsas com o nome de corretoras respeitadas e a dar um telefone para o investidor confirmar, mas o número é falso e quem atende é uma pessoa que trabalha também no esquema.
Por isso, é importante o investidor confirmar nos sites da CVM e da bolsa o registro da instituição para ver se ela realmente existe e se está regularizada para checar. "Ele ajuda a CVM a fiscalizar e evita perder dinheiro", diz.
Em geral, a CVM responde às dúvidas em dois ou três dias. Mas, se há um esquema irregular, a resposta vai depender da investigação, que poderá resultar em uma deliberação da CVM alertando o mercado que aquela empresa ou pessoa está fazendo algo errado. "Não é uma punição, é uma ordem para parar", explica. Vasco. Se a empresa continuar oferecendo a aplicação, há multa de até R$ 5 mil por dia limitada a 60 dias ou R$ 300 mil e, depois, pode ser aberto um processo administrativo, que resultará na proibição de atuar no mercado por dez anos ou inabilitação por 20 anos.
Ao mesmo tempo, o Ministério Público Federal é avisado. "A CVM tem poder apenas administrativo, a parte civil e criminal cabe ao Ministério Público", explica Alexandre Pinheiro dos Santos, da Procuradoria Federal especializada junto à CVM. Desde 2006, um convênio tornou mais ágil esse trabalho do MP, que já resultou em dois processos envolvendo informação privilegiada com ações da Sadia e da Tenda. A punição para crimes envolvendo manipulação do mercado pode levar a penas de um a oito anos. Já os crimes de distribuição ou gestão de investimentos irregular têm pena menor, de seis meses a dois anos de prisão mais multa (artigo 27, letra "E" da Lei 6.385).
As denúncias e consultas vêm crescendo, depois de um pico em 2005, quando houve forte procura por informações envolvendo o dinheiro do fundo 157, afirma Vasco, da CVM. Segundo ele, o serviço de atendimento ao investidor registra um amadurecimento das denúncias, mais fundamentadas. Não há, porém, regra ou lei capaz de impedir as armadilhas, afirma Vasco. "Não há como evitar a má fé, a ação criminosa vai continuar a existir, por isso a CVM tem poder de fiscalizar e aplicar punições", diz.
Ironicamente, a
CVM não pode fazer nada sobre pirâmides que não se apresentam
como uma aplicação financeira, como a que circula na internet
e promete ganhos 150 vezes maior que o da poupança. "A CVM só
tem competência quando a captação se caracteriza como oferta
pública de valor mobiliário, ou seja, se houver oferta de contrato
de investimento coletivo, mesmo que se descubra depois que não existia
nada além da pirâmide", diz Vasco. "Fora disso, é
caso simples do artigo 171 do Código Penal."
No Brasil, Madoff dificilmente iria para a prisão, admite procurador
Se estivesse no Brasil, o golpista americano Bernard Madoff dificilmente ficaria preso, mesmo depois de ter montado a pirâmide que prejudicou milhares de investidores e provocou prejuízo de US$ 62 bilhões, admite Marcelo Moscogliato, procurador da República junto ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em São Paulo, especialista em crimes financeiros. Madoff foi condenado a 150 anos e preso pouco mais de três meses depois de o caso ter sido descoberto. "Ele era agente de mercado regularizado, tinha autorização para oferecer fundos", afirma Moscogliato.
No Brasil, Madoff seria enquadrado em crime financeiro continuado e gestão fraudulenta e temerária, com pena de um a oito anos de prisão, explica. A pena poderia ser ampliada com outros crimes como sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. "Mas a pena seria menor que a dos EUA e não seria um processo tão célere, pois haveria uma cascata de recursos que terminaria só no Supremo (Tribunal Federal)." Além disso, ele não seria preso até o trânsito em julgado, o que levaria anos. "O sistema fornece os elementos para ele evitar a sentença."
A parceria com a CVM vem ajudando o Ministério Público a agir contra as irregularidades do mercado com mais rapidez, afirma Moscogliato. No caso das pirâmides, ele acredita que a única forma de evitar é educar as pessoas. "O investidor deve desconfiar de alguém que oferece uma vantagem que ninguém mais tem, não existe almoço grátis nem ganho alto sem risco de perda", diz. "É a velha história do avestruz, do boi, coisas que mostram que o investidor é passivo ao cuidar de suas aplicações e fica exposto a esses milagres."
A colaboração dos investidores também é fundamental para as investigações, diz Moscogliato. "Uma denúncia sobre uma pirâmide no Acre será investigada, mas se houver dados sobre como a oferta foi feita, cópias de e-mails ou do site, a conta onde o dinheiro seria depositado e os contatos dos organizadores aumentam as chances de pegarmos os responsáveis", diz. "Mas o importante é que o investidor preste atenção onde investe o dinheiro."
Para denunciar golpes, a Procuradoria de São Paulo tem sites: ww w.prsp.mpf.gov.br ou www.prr3. mpf.gov.br; e o telefone (11) 3269 5000 . Para outros estados, basta trocar as letras SP no endereço eletrônico pelas do Estado onde o investidor está, o seja, no Rio, www.prrj.mpf.gov.br.
Analistas lembram porém que, às vezes, o investidor não denuncia por se sentir envergonhado por ter caído no golpe. Outros, aplicaram dinheiro não declarado e temem ter depois de prestar contas com a Receita.
Segundo Moscogliato,
uma vez que entrou num esquema de pirâmide, a chance de recuperar o dinheiro
é pequena. "Uma coisa típica das pirâmides é
a péssima gestão, o responsável gasta o dinheiro das pessoas
e, se investe, faz isso sem muito conhecimento ou cuidado, o que dificulta a
restituição."
Fonte: Valor Econômico
08/04/09